TUDO COMEÇA NA BOCA
A comida contemporânea faz do
paladar a porta de entrada para
a estimulação dos outros sentidos

Por Eduardo Sena
No mundo globalizado, a ausência de um ingrediente fundamental – o tempo – vem mudando os hábitos alimentares da população, exigindo rapidez até na hora de comer. As pessoas praticamente não percebem o que comem, em pé, diante da televisão, no trabalho, pela rua, comer é um ato quase sempre mecânico. Reflexo da padronização de sabores e produtos em escala planetária.
Na contramão desta corrente, surgem movimentos em todo o mundo, a exemplo do Slow food e do Terra Madre, que prezam pela valorização dos ingredientes e preservação de tradições culinárias. A gastronomia contemporânea, por sua vez, também milita por essa causa. Entre seus objetivos, está o de resgatar a capacidade que o homem vem perdendo: a de sentir, eleger e refletir sobre os sabores levados a boca.
Categoria cultural que é, a comida não deveria nutrir apenas o corpo, mas também os sentidos. Alimentar a inteligência. “Através do uso dos sentidos à mesa, podemos alcançar momentos de plenitude. A mesa é um dos lugares mais adequados para esse exercício”, defende a jornalista gastronômica Flávia de Gusmão. Os chefs contemporâneos têm assumido, portanto, uma função social além do deleite de sua clientela. “Precisamos estimular as pessoas”, diz o chef Douglas Van Der Ley.
Alguém já disse, sabiamente, que a genialidade nada mais é do que a manipulação inteligente e elegante da simplicidade. Van Der Ley parece entender isso como poucos pares de profissão. Certa vez, em seu cardápio, ele reuniu conceitos de mundos distantes para conceber uma entrada, no mínimo, desconcertante. Usou folhas de jambu, a erva de efeito anestésico e eletrizante dos índios do Norte do Brasil, para enrolar um tartar* de salmão. O resultado foi um temaki* situado em algum lugar entre as duas civilizações. Quem experimentou garante que o efeito é inesquecível.
Logo que o palato toma contato com a folha de jambu, surgem os primeiros formigamentos na língua. Em seguida, percebe-se o sabor tranquilizante do salmão. Por sugestão do chef, toma-se um gole de espumante. A bebida conduz a sensação sutilmente formigante pelo resto da boca. “Muitas vezes, na cozinha, a simples combinação de ingredientes nunca antes coordenados revela efeitos extraordinários”, diz Douglas.
As experiências são várias, e apesar de temerárias, podem sim surpreender positivamente. Chef com esse viés mais subversivo, André Falcão inseriu no mercado gastrô a concepção de sorvetes salgados. Não como um prato único, e sim como ingrediente de outro acepipe. “Tento mostrar um caminho de sabor diferenciado, com uma nova textura e combinações inusitadas”, esclarece. Nesse caso, a brandade* de bacalhau, entrada clássica francesa, vem servida com couve-flor mineira, sobre ela, sorvete de cebola. “Brinco com três fatores. Textura, temperatura e sabor. À medida que o sorvete derrete vai temperando o que está por baixo”, explica.
Claudemir Barros, do Wiella Bistrô, também buscou inspiração francófila para reinterpretar pratos da culinária do Carême, sucessos de outras épocas, hoje meio fora de cartaz: blinis* com ovas, hit absoluto nos anos 80, e codorna sobre massa folhada. Aí mora outra capacidade da comida, evocar seu passado e, de tabela, denotar mudança e construção de novos hábitos. Ou de servir como passaporte imediato para épocas de nossas vidas, usando o paladar como atalho para a memória afetiva. “Quis realmente lembrar às pessoas que elas comiam esses pratos antes e que eles nos trouxeram onde estamos gastronomicamente”, detalhou Claudemir.
Chef artista, comida espetáculo
Esse é um ponto em comum que a alimentação tem com a arte: a de nutrir o corpo em várias possibilidades, seja ele físico ou emocional. Música, artes plásticas, teatro, e cinema estão nesse contexto e nos conduzem a um fluxo de sentimentos. A comida também tem esse viés. Se sensibilizar ao comer um feijão com o mesmo gosto do da sua avó é tão possível quanto se comover ao ver a Monalisa no Louvre, em Paris. Há até quem opine contra, mas no âmbito contemporâneo da gastronomia, os chefs têm se revelado verdadeiros artistas, provocando no comensal efeitos sinestésicos. Dessa forma, o produto final – o prato – cada vez mais, ganha nuances de arte, em todas as possibilidades da palavra. A comida é muito bem elaborada antes de chegar à mesa, e até ser levada à boca passa por um momento de pura reflexão e sinestesia.
Para o jornalista e pesquisador gastronômico, Bruno Albertim, o comensal deve ir a um restaurante de cozinha contemporânea, como quem vai a um espetáculo de cinema, teatro, ou dança. “A diferença é que se ingere aquele espetáculo, então, quem come deve entender o que está comendo ali. Caso contrário, não vale a pena pagar o ingresso”, destaca. Na opinião de Albertim, para ser considerado uma verdadeira obra de arte na cozinha, um prato deve “alimentar” em três frentes: sensorial, intelectual e nutricional. “Comida, como linguagem que é, não serve para alimentar apenas o corpo. Ela alimenta o espírito e as ideias”, explica.
A empresária Clarice Brito tem a mesma preocupação na hora de comer, e destaca que a “comida espetáculo” que a gastronomia contemporânea propõe não é propriamente uma refeição que vai saciar a fome nutricional, mas outros anseios do ser humano. “Uma experiência gastronômica válida consiste em você ir a um restaurante para comer e dizer ‘Nossa, o chef foi genial, ele misturou um filé de pato com molho de café, adicionou uma erva do sertão no azeite e deu uma aromatizada. Reuniu três coisas totalmente diferentes e fez um prato’. Então, ele faz você pensar sobre a comida, faz você refletir sobre as culturas que estão ali no prato”, avalia.
Essa forma de entender os hábitos alimentares não é unânime, esteira para uma discussão que vai além da mesa, está também nos livros. A pesquisadora em educação Anna Gouvêa, ao analisar a relação entre alimentação e arte em um de seus estudos, concluiu que a comida tem que ser gostosa independentemente de provocar questionamentos. ”Comida é necessidade vital, sobrevivência; espetáculo é artifício e representação. Honestamente, eu não vou a restaurante algum para pensar sobre a comida. Essa parte de mim eu deixo para outras atividades”, afiança.
Apesar da sociedade pós-moderna exigir uma rapidez automática, inibindo até a relação prazerosa entre a comida e o homem, paradoxalmente, a cozinha, também, contemporânea, abre várias possibilidades para o conceito de satisfação, e prova que o alimento não pode ser visto apenas como necessidade física. Também pode estimular os sentidos, proporcionando ao comensal momentos de catarse na mesa.














O esquecido cajuzinho, que já fez alegria de muita gente, na coleção Maria´s Wedding, está fazendo jus ao nome que leva. Se antes levava amendoim como base para preparo, dessa vez tem castanhas inteiras sobre massa de brigadeiro branco e castanha. A cor não lembra o antigo, mas o sabor remete ao passado, só que de forma mais delicada.
Maria Ângela Corte Real e Conça Tavares acertaram em cheio ao promover esse resgate, se superando nesses 20 anos de sucesso da Maria´s. São duas décadas deixando a vida dos clientes, com muito estilo, cada vez mais doce.




